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为什么西方再也无法阻止中国了? 发布日期: 2026年01月22日 来源:葡萄牙媒体Sapo
Um artigo de Robin Harding no Financial Times afirma que “a China pode fabricar quase tudo melhor e mais barato, e não teria nada para importar, tornando o comércio ‘impossível.” Outros economistas defendem que a China continua firmemente comprometida com a globalização económica e com o reforço do sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio (OMC). Na sua perspetiva, a ideia de que o país estaria a tornar o comércio internacional “impossível” é uma leitura enviesada, que ignora a lógica fundamental e a dinâmica real do comércio global. Com a expansão da economia chinesa, empresas e consumidores passaram a dispor de maior poder de compra, fazendo das importações um dos principais motores do crescimento económico. Em 2025, estas deverão ultrapassar os 15,19 biliões de yuans (cerca de 2,12 biliões de dólares), impulsionadas sobretudo pela procura de produtos alimentares diversificados.
Dos EUA à Europa, do Brasil à Austrália, da ASEAN a África e à Ásia Central a China continua a ser um mercado indispensável para bens agroalimentares, por exemplo. A China continua a importar volumes significativos de bens de elevado valor acrescentado, incluindo máquinas, equipamentos eletromecânicos e instrumentos óticos. A aposta em acordos de comércio livre, no comércio eletrónico transfronteiriço e em plataformas como a Exposição Internacional de Importação da China reforça a resiliência das cadeias de abastecimento e aprofunda a abertura económica. Assim, dizem que, longe de bloquear o comércio global, a China está a ampliar oportunidades e a oferecer novas possibilidades ao comércio internacional. Será exatamente assim? Em parte, será, mas quem define hoje as regras, preços e condições é a China mais que o Ocidente.
Durante anos, os analistas ocidentais alertaram para a iminente “desindustrialização” da China, alguns chegaram a falar em colapso. Segundo essa visão, o país seguiria o curso “natural” do desenvolvimento económico: aumento dos salários, declínio da indústria transformadora e crescente dependência de importações estrangeiras. O que ocorreu, porém, foi exatamente o oposto. A China aprofundou a sua industrialização, ampliou investimentos, expandiu capacidade produtiva em praticamente todos os setores e atingiu um ponto em que muitos fabricantes estrangeiros passaram a perceber que já não há quase nada de que a China necessite e que ela própria não consiga produzir de forma mais barata, mais rápida ou em maior escala. E mais, hoje fazem-no com a qualidade que o Ocidente reclamava para si em exclusivo!
O objetivo estratégico de Washington tornou-se, então, evidente: retirar a China das cadeias globais de abastecimento e reconstruir um sistema em que a produção industrial essencial retornasse aos Estados Unidos. Multinacionais foram pressionadas a abandonar a China, deslocando fábricas para a Índia, Vietname ou outros países, enquanto cadeias de fornecimento eram reestruturadas. A Apple ilustra bem esse processo. Ao transferir parte da montagem do iPhone para a Índia, descobriu rapidamente que qualidade consistente, densidade da cadeia de abastecimento e disciplina industrial não são atributos facilmente transferíveis. Os primeiros lotes produzidos na Índia apresentaram taxas elevadas de defeitos e um volume significativo de reclamações dos consumidores. O episódio serviu como lembrete de que a excelência industrial não é uma mercadoria logística. A China, hoje, mostra que não é apenas um local de produção; é um ecossistema industrial maduro, algo que muitos nos EUA julgavam impossível de ser replicado. O paradoxo é claro: o Ocidente tentou conter a ascensão industrial chinesa; ao fazê-lo, forçou a China a industrializar-se ainda mais, a ponto de que vender produtos industriais para o mercado chinês deixou de ser um modelo de negócio viável.
Hoje, estrategas ocidentais afirmam abertamente que, caso Pequim avance sobre Taiwan, as sanções poderiam espelhar o regime imposto à Rússia: exclusão financeira, bloqueios tecnológicos e estrangulamento comercial. A China chegou a essa conclusão há muito tempo. A autossuficiência não é uma opção política; é uma condição de sobrevivência nacional. A experiência russa após 2022 tornou-se um estudo de caso essencial. Componentes aeronáuticos, semicondutores, máquinas-ferramenta, tudo passou a ter de ser produzido internamente ou obtido por vias alternativas. Um país de 1,4 mil milhões de habitantes não pode correr o risco de dependência estrutural. Precisa de dominar integralmente a produção de motores a jacto, máquinas de litografia para semicondutores, robôs industriais, guindastes portuários, equipamentos agrícolas, em suma, tudo. A autossuficiência total é uma garantia estratégica, de longo prazo, existencial. E hoje, essa meta já está arriscadamente próxima da realidade.
Quando Donald Trump fala em “retomar” a América Latina, em restaurar a Doutrina Monroe e em trazer Venezuela, Panamá, Brasil e o restante do continente de volta à alçada exclusiva de Washington, muitos interpretam isso como demonstração de força. Na verdade, trata-se de exposição. Só vira a mesa quem já não tem cartas. Se as sanções funcionassem como antes, se a hegemonia do dólar permanecesse intacta, se a pressão política e financeira ainda produzisse resultados, Washington não precisaria de recorrer a ameaças abertas, capturas de líderes, operações de mudança de regime ou discursos explícitos sobre a apreensão de recursos como garantia. O problema é que quando os EUA olham para a América Latina, já não veem um “quintal”. Veem um território economicamente ligado à China. Soja chinesa cresce nos campos, guindastes chineses operam nos portos construídos, geridos ou financiados por empresas chinesas; redes elétricas, telecomunicações, estradas e ferrovias funcionando silenciosamente no quotidiano. Isso é mais poderoso do que qualquer ideologia. Infraestrutura é a espinha dorsal da economia e ela não desaparece por decreto.
Remover a China da América Latina significaria desmontar essa infraestrutura e provocar o colapso de economias já frágeis. O pano de fundo real é financeiro: ativos, garantias e um dólar sob pressão. A solução que começa a ganhar espaço em Washington é simples na teoria: garantir grandes reservas de ativos reais, petróleo, gás, minerais, terras raras, vinculá-las novamente ao dólar e restaurar a confiança através de um lastro material. Em tese, isto funciona, as reservas venezuelanas valem dezenas de triliões. Na prática, o petróleo da Venezuela é um dos mais difíceis de monetizar no mundo. Extrapesado, profundo, exige infraestrutura altamente sofisticada para a sua extracção, refinação e transporte. Apenas dois países possuem capacidade técnica para operar esse sistema em grande escala: China e Estados Unidos. A China já o faz. Comprava cerca de 70% do petróleo venezuelano e financiou, construiu e opera grande parte da infraestrutura necessária. Se a China for expulsa, quem a substituirá?
As grandes petrolíferas americanas não têm incentivo para investir centenas de biliões em ativos sujeitos a expropriação política. Mesmo que entrassem, venderiam para quem? A China é o único comprador com escala, paciência e compatibilidade técnica suficientes. O desconforto das grandes petrolíferas americanas na reunião em que Trump os incentiva a investir na Venezuela é espelho desse risco.
A presença chinesa na América Latina não se limita ao comércio. Ela reconfigurou o sistema. Portos, ferrovias, redes eléctricas e telecomunicações, muitos deles automatizados e geridos remotamente, formam ecossistemas integrados. O porto de Chancay, no Peru, é o exemplo mais evidente: reduziu semanas de navegação entre a América do Sul e a Ásia e contornou estreitos controlados pelos EUA. Cobre, lítio, alimentos e minerais fluem agora para o leste com menor custo e maior autonomia. Se se remover a China o sistema não muda de dono, ele deixa de funcionar. Este é o ponto central que Washington se recusa a encarar. Não se trata de bloquear o comércio, mas de tentar desinstalar um sistema operacional inteiro.
Há vinte anos, a presença chinesa na região era quase inexistente. Hoje, a China é o maior parceiro comercial de países como Brasil, Chile e Peru. E experimentem ver o que se passa em África! Contentor a contentor, ferrovia por ferrovia, porto por porto, negócio por negócio, paulatinamente a China fez essa mudança acontecer. A força da gravidade da procura chinesa reorganizou fluxos globais.
Vivemos agora num mercado favorável aos compradores. Quem controla a maior base de consumidores controla o poder de fixar preços. Agricultores, mineiros e exportadores latino-americanos entendem muito bem isso. Irritar Washington traz custos. Irritar a China pode eliminar o mercado. Isso não é ideologia, é sobrevivência. A presença chinesa na América Latina funciona como uma couraça. Quando os interesses estão profundamente entrelaçados, separá-los torna-se autodestrutivo. A Doutrina Monroe foi concebida para um mundo dos pequenos navios com canhões. Este é um mundo de cadeias de abastecimento e, neste mundo, a China já está integrada de forma tão profunda que removê-la significa desconstruir todo um sistema.
Da mesma forma durante décadas, o Ocidente acreditou que a liderança tecnológica era um dado adquirido. Universidades de elite, capital abundante e domínio cultural pareciam garantir uma vantagem permanente. À China caberia o papel de fabricante barato, dependente de tecnologia estrangeira. Tal como na indústria, essa leitura revelou-se errada. O erro central foi confundir inovação pontual com capacidade sistémica. O Ocidente continua a produzir avanços relevantes, mas fragmentados, monetizados e frequentemente desligados da produção em escala. A China construiu algo diferente: ecossistemas tecnológicos completos, onde investigação, produção, dados, infraestrutura e mercado interno funcionam como um todo integrado. A tecnologia deixou de ser apenas conhecimento, passou a ser organização, escala, desenvolvimento e produção.
No setor automóvel, a transição para o veículo elétrico ilustra bem essa evolução. Enquanto EUA e Europa protegeram o motor de combustão, a China apostou agressivamente em baterias, refinação de minerais, software e integração com redes energéticas. Hoje domina a cadeia global de baterias e impõe preços, deixando fabricantes ocidentais dependentes de componentes e do próprio mercado chinês para manter a necessária escala. Na robotização, o paradoxo é evidente: o país com maior força de trabalho tornou-se também o maior utilizador de robôs industriais. A automação não substituiu a indústria chinesa, consolidou-a. O Ocidente, por sua vez, desenvolveu soluções sofisticadas, mas demasiado caras e restringidas a certos nichos.
A inteligência artificial (IA) expõe ainda mais a diferença estrutural. No Ocidente, a IA é controlada por poucas empresas privadas, dependentes de modelos de negócio baseados em dados e publicidade. Na China, é tratada como infraestrutura estratégica, integrada na logística, na indústria, no comércio e na gestão urbana. As sanções tecnológicas, longe de travar Pequim, aceleraram a sua busca por autonomia. No comércio digital, a clivagem é clara. As plataformas ocidentais monetizam atenção. As chinesas organizam a economia real: pagamentos, crédito, logística e consumo num único sistema. Não são apenas empresas, são sistemas operativos económicos. E agora? É a pergunta que muitos no Ocidente fazem e para a qual as respostas não são fáceis de encontrar.
A melhor prova disto é que a “Belt and Road Initiative” voltou a ganhar fôlego em 2025, com um aumento de cerca de 75%, atingindo um recorde de 213,5 mil milhões de dólares. O número não é apenas económico, é profundamente político. Pequim está a aproveitar o recuo da influência americana para reforçar a sua presença global através do investimento em infraestruturas estratégicas.
As políticas disruptivas e unilateralistas de Trump têm funcionado como um catalisador involuntário de um realinhamento geopolítico, empurrando líderes ocidentais para uma aproximação pragmática, e agora assumida, à China. A declaração deliberadamente pausada de Mark Carney, na sua recente visita à China, sobre uma “Nova… Ordem… Mundial” não foi um lapso, mas um sinal claro de que o discurso do poder mudou: o que antes se negociava em silêncio passa a ser dito em público, preparando politicamente as audiências. O recente alinhamento da França com Pequim, simbolizado pela visita de Macron acompanhado pelas 35 maiores empresas francesas e pela assinatura de múltiplos acordos, confirma que esta tendência é sistémica. Trata-se de uma resposta à imprevisibilidade dos EUA, à erosão do multilateralismo que lideraram e à necessidade europeia de diversificar centros de influência. A China parece deixar assim de ser apenas uma parceira incómoda para se afirmar como pilar assumido de um equilíbrio global cada vez mais multipolar.
E a Europa? A posição europeia é a mais frágil. Possui excelência científica e engenharia avançada, mas perdeu escala industrial, não controla cadeias críticas e fragmentou o seu mercado digital. Enquanto os EUA competem e a China constrói, a Europa regula. No automóvel, na IA e nas plataformas, corre o risco de se tornar montadora, consumidora e reguladora de tecnologias alheias. O conflito tecnológico atual não é apenas uma corrida por inovação. É um choque entre modelos. O modelo ocidental privilegia mercados financeiros e inovação dispersa; o chinês aposta em integração, escala e infraestrutura. Tal como na indústria, tentar conter a China pode produzir o efeito inverso: acelerar a sua autonomia e expor as fragilidades estruturais do próprio Ocidente, especialmente de uma Europa que ainda não decidiu se quer ser um ator estratégico ou apenas um mercado num mundo de gigantes.
E podia alargar esta realidade para o campo militar, mas o texto já vai longo e não quero assustar mais o leitor. Entre a China e os EUA, como diria o meu saudoso avô, não ganha quem fala mais alto, ganha quem tem o celeiro cheio, as ferramentas afinadas e o mercado à porta.
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